A dor no ombro costuma aparecer sem uma explicação clara. Estende o braço para chegar a algo mais alto, dorme numa posição estranha, lança uma bola — ou acorda um dia e simplesmente já não consegue mover o braço como conseguia antes. O que está realmente a acontecer raramente é óbvio. Talvez já tenha ouvido falar de rotura da coifa dos rotadores, ombro congelado ou síndrome de conflito subacromial, e se tenha perguntado qual deles se aplica ao seu caso — ou se algum se aplica.
A dificuldade está no facto de muitas condições do ombro parecerem semelhantes à superfície. Dor ao levantar o braço, rigidez, fraqueza, dor durante a noite — estes sintomas podem surgir em vários diagnósticos diferentes, o que torna difícil perceber sozinho a causa. Este artigo, escrito por uma equipa de fisioterapeutas, analisa cinco das causas mais comuns de dor no ombro, o que distingue cada uma delas e como pode ser o processo de recuperação.
As causas mais comuns de dor no ombro
Estas condições estão por trás de grande parte dos casos de dor no ombro. Não são mutuamente exclusivas — algumas pessoas podem ter mais do que uma ao mesmo tempo — mas compreender cada uma separadamente é um bom ponto de partida.
Radiculopatia cervical: quando a origem está no pescoço
A radiculopatia cervical começa no pescoço, não no ombro. Acontece quando um nervo fica comprimido na coluna cervical — a região da coluna que passa pelo pescoço — provocando dor, formigueiro ou dormência que pode irradiar ao longo do trajeto desse nervo. O ombro é um dos locais onde essa dor pode fazer-se sentir.1 2
Pode ter radiculopatia cervical se:
- sente uma dor intensa, tipo queimadura ou irradiada — normalmente apenas de um lado — que percorre o pescoço, o ombro, o braço ou a mão;1
- sente formigueiro ou dormência no braço ou na mão, ou a sensação de que parte do braço “adormeceu”;
- mover o pescoço — incliná-lo ou rodá-lo — altera ou agrava a dor.3
Rotura da coifa dos rotadores
A coifa dos rotadores é um conjunto de quatro músculos e tendões que ajudam a manter a articulação do ombro estável e permitem que o braço rode e se eleve. Quando um ou mais destes tendões sofre uma rotura — por uma lesão súbita, por movimentos repetitivos acima da cabeça ou pelo desgaste gradual associado ao envelhecimento — os sintomas podem variar entre uma dor surda e uma dor intensa acompanhada de fraqueza.4
As roturas da coifa dos rotadores são mais comuns do que muitas pessoas imaginam. Estudos sugerem que cerca de uma em cada cinco pessoas com mais de 50 anos tem uma rotura — muitas vezes sem o saber.5 Quando causam sintomas, o padrão tende a ser reconhecível.
Pode ter uma rotura da coifa dos rotadores se:
- sente dor no ombro ao levantar o braço acima da cabeça ou para o lado;
- nota fraqueza no braço, com dificuldade em levantar objetos ou segurar coisas;
- sente dor à noite, especialmente quando se deita sobre o ombro afetado.4
Conflito subacromial
Também conhecido como “ombro do nadador”, o conflito subacromial ocorre quando o espaço entre os tendões da coifa dos rotadores e o osso no topo do ombro — o acrómio — fica demasiado estreito. Os tendões podem ficar comprimidos e irritados, sobretudo durante movimentos acima da cabeça, causando dor e inflamação que podem agravar-se ao longo do tempo se não forem tratadas.6
Pode ter síndrome de conflito subacromial se:
- sente dor ao levantar o braço para o lado ou acima da cabeça, frequentemente entre os 60 e os 120 graus de elevação;
- sente dor na parte da frente ou lateral do ombro, que piora ao estender o braço ou ao transportar objetos;
- a fraqueza ou a rigidez dificultam atividades acima da cabeça, e os sintomas aliviam quando o braço está em repouso.6
Lesão do labrum
O labrum é um anel de cartilagem que reveste a cavidade do ombro e ajuda a manter a articulação estável. Uma lesão nesta cartilagem pode acontecer após um impacto súbito — como uma queda, uma luxação ou um movimento forçado acima da cabeça — ou resultar de esforço repetitivo ao longo do tempo. Existem dois tipos principais, que tendem a afetar grupos diferentes de pessoas.
Lesão SLAP. Uma lesão SLAP ocorre na parte superior do labrum, no local onde o tendão do bicípite se insere. É mais comum em pessoas que fazem movimentos repetitivos de lançamento ou outros movimentos acima da cabeça.7
Pode ter uma lesão SLAP se:
- sente dor na parte da frente do ombro, perto do tendão do bicípite;
- nota uma sensação de clique, estalido ou crepitação no ombro;7
- sente perda de força ou redução da amplitude nos movimentos acima da cabeça.
Lesão de Bankart. A lesão de Bankart ocorre na margem inferior do labrum e é geralmente causada por uma luxação do ombro.8
Pode ter uma lesão de Bankart se:
* sente o ombro instável, como se estivesse a escapar ou prestes a deslocar;
* o ombro já deslocou antes e as luxações estão a tornar-se mais frequentes ou mais fáceis de provocar;8
* sente uma dor surda no ombro e na parte superior do braço, ou uma sensação de bloqueio na articulação.
Ombro congelado
O ombro congelado — também conhecido como capsulite adesiva — desenvolve-se quando o tecido que envolve a articulação do ombro fica inflamado, espessado e progressivamente contraído, limitando de forma importante o movimento.9 É uma das condições do ombro mais incapacitantes, porque tende a piorar antes de melhorar e pode demorar meses a resolver, mesmo com tratamento adequado.
A condição evolui por fases.10 Na fase inicial, a dor aumenta gradualmente e o movimento começa a ficar limitado. Esta é, muitas vezes, a fase mais dolorosa e pode durar vários meses. Na fase seguinte, a dor pode estabilizar ou aliviar ligeiramente, mas a rigidez torna-se dominante, dificultando muito a utilização do ombro. A terceira fase corresponde à recuperação gradual do movimento.
Pode ter ombro congelado se:
- o movimento vai ficando progressivamente limitado em todas as direções — não apenas ao levantar o braço;9
- tem uma dor gradual e persistente, que tende a piorar à noite;
- o ombro foi imobilizado recentemente, por exemplo após uma lesão, cirurgia ou período de repouso forçado.9
A fisioterapia precoce pode ser particularmente importante nesta condição. Iniciar o tratamento mais cedo pode ajudar a reduzir a rigidez, preservar o movimento possível e encurtar o tempo total de recuperação.11
O que fazer
Muitas destas condições têm sintomas semelhantes, por isso uma avaliação profissional é importante. Em alguns casos, pode ser necessária imagiologia — como ressonância magnética, ecografia ou tomografia computorizada — para confirmar o que está a acontecer. Se a dor for intensa, estiver a piorar ou vier acompanhada de dormência, formigueiro ou perda de força, deve procurar avaliação por um profissional de saúde em vez de esperar.
A boa notícia é que, na maioria dos casos, a cirurgia não é o primeiro passo. A dor no ombro responde frequentemente bem ao tratamento conservador. Exercício orientado, fortalecimento muscular, trabalho de amplitude de movimento e terapia manual podem produzir resultados iguais ou superiores aos de intervenções cirúrgicas para muitas pessoas — sem operação, sem internamento e sem meses de reabilitação pós-cirúrgica.6 12
A dor no ombro não tratada pode agravar-se ao longo do tempo. Os músculos começam a compensar, os padrões de movimento alteram-se e condições que poderiam ser tratadas mais facilmente numa fase inicial tornam-se mais difíceis de resolver mais tarde. Em Portugal, conseguir uma consulta presencial de fisioterapia através do SNS pode implicar uma espera de semanas ou meses. Com a Sword, a fisioterapia em casa pode começar mais cedo.
Em resumo
A dor no ombro raramente é um mistério impossível de resolver. As cinco condições abordadas neste artigo explicam grande parte dos casos de dor no ombro e cada uma tem um padrão reconhecível — quando se sabe o que procurar.
O que têm em comum é tão importante como o que as distingue: todas podem responder à fisioterapia, nenhuma exige cirurgia como primeiro passo na maioria dos casos, e todas tendem a tornar-se mais difíceis de tratar quanto mais tempo passam sem acompanhamento adequado. Condições que parecem permanentes raramente o são — mas precisam dos cuidados certos para melhorar.
Se o seu ombro o tem incomodado, perceber com clareza o que se passa é o primeiro passo. A partir daí, a recuperação pode ser mais alcançável do que imagina.
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