Bato com o dedo do pé em alguma coisa com bastante frequência. E, de cada vez, a dor é imediata e intensa: percorre o corpo todo e desaparece quase tão depressa como apareceu. Já aprendi a lidar com isso.
A minha dor nas costas é uma história diferente. Quando aparece, não consigo simplesmente ignorá-la. Fico em alerta. Dou por mim a ajustar, quase sem pensar, a forma como me sento, como saio da cama, como apanho coisas do chão, criando todo um conjunto de pequenas adaptações para evitar os movimentos que sei que podem desencadear dor. Parece inteligente. Parece protetor.
Mas, depois de anos a trabalhar com pessoas com dor, vi o que acontece quando a evitação se torna o padrão. E a investigação mostra uma realidade mais complexa do que aquela que os nossos instintos nos dizem.
Porque é que a dor nos faz querer parar
A dor evoluiu como um mecanismo de proteção. Quando parte um osso ou lesiona um músculo, a resposta do cérebro — parar, proteger, não usar essa zona — faz todo o sentido do ponto de vista biológico. O sinal de dor está a cumprir a sua função: prevenir mais danos em tecidos que precisam realmente de descanso.
O problema é que o cérebro nem sempre é preciso a identificar as situações que exigem essa resposta. Aprende padrões. Se um movimento foi associado à dor vezes suficientes, o cérebro pode começar a gerar um sinal de dor em antecipação de uma lesão, e não necessariamente em resposta a uma lesão real — mesmo depois de o dano tecidual original já ter cicatrizado. O sinal parece igualmente real e igualmente urgente. Mas aquilo que comunica já pode não ser preciso.
Isto não é uma falha de caráter nem um sinal de fraqueza. É uma característica bem documentada do funcionamento do sistema nervoso e afeta muitas pessoas que vivem com condições musculoesqueléticas. O desconforto é real. O que mudou foi a sua origem.
Como a evitação agrava o ciclo
Quando evitamos movimentos que provocam dor, enviamos ao cérebro uma mensagem clara: isto é perigoso. Quanto mais consistentemente evitamos esse movimento, mais convicto o cérebro fica de que essa proteção é necessária. Com o tempo, o conjunto de movimentos que parecem seguros vai diminuindo. O limiar para desencadear dor baixa. O que começou como uma resposta razoável a uma lesão aguda transforma-se num padrão que mantém a pessoa presa.
A investigação sobre o modelo de medo-evitação na dor crónica mostra que este ciclo — dor, medo, evitamento, descondicionamento, mais dor — é uma das vias mais comuns através das quais lesões musculoesqueléticas agudas se tornam problemas persistentes.¹ A componente física agrava o problema inicial. Um joelho que foi protegido durante meses tem menos suporte muscular do que antes, o que o torna genuinamente mais vulnerável — dando ao cérebro ainda mais razões para o proteger. O ciclo reforça-se a si próprio.
A boa notícia é que este ciclo também pode funcionar no sentido inverso. A mesma plasticidade que permitiu ao cérebro aprender a evitar o movimento pode ser usada para reaprender que o movimento é seguro.
Comece por compreender a sua dor
Nada disto significa que deve forçar todos os movimentos. O primeiro e mais importante passo é perceber o que está realmente a causar a dor — e esse processo é, muitas vezes, menos assustador do que as pessoas imaginam.
A grande maioria das dores musculoesqueléticas tem uma causa mecânica ou relacionada com o movimento que pode ser tratada. O meu primeiro trabalho como fisioterapeuta é identificar a verdadeira origem da dor: perceber se vem da estrutura que a pessoa imagina, se está a ser referida a partir de outro local, ou se há algo no quadro clínico que sugira uma causa que exige outro tipo de atenção.
Essa clareza não é apenas útil do ponto de vista prático. Também muda a forma como a dor é sentida. Quando percebe que a sua dor não é sinal de dano grave em curso — mas sim o sistema nervoso a tentar protegê-lo de forma demasiado intensa — parte do medo que estava a amplificar a dor começa a diminuir.
Essa mudança de compreensão tem efeitos mensuráveis. A educação em ciência da dor, quando combinada com fisioterapia, demonstrou reduções significativas nos níveis de dor, no medo do movimento e na incapacidade em pessoas com condições musculoesqueléticas crónicas.³ Saber o que se passa no corpo muda a relação que tem com os sinais que o corpo envia.
O desconforto que faz parte da recuperação
Depois de compreender a origem da dor, o passo seguinte é aprender a distinguir diferentes tipos de desconforto. Esta é uma das partes mais subtis da recuperação — e é genuinamente difícil de calibrar sozinho.
Há um desconforto que faz parte da recuperação. A ligeira dor de um músculo que está a trabalhar mais do que o habitual. A sensibilidade temporária que pode surgir depois de uma sessão de exercício terapêutico. O esforço de se mover numa amplitude que esteve limitada durante meses. Este tipo de desconforto é esperado durante a recuperação, e trabalhar dentro dele, com cuidado, faz parte do processo de reconstrução da força e da mobilidade.
Uma revisão sistemática e meta-análise concluiu que o exercício que envolve algum grau de dor produziu resultados comparáveis ao exercício sem dor em pessoas com condições musculoesqueléticas crónicas — o que significa que evitar todo o desconforto não é uma condição necessária para uma recuperação eficaz.⁴
Depois há o desconforto que é sinal para parar: dor aguda, dor que irradia num padrão sugestivo de envolvimento nervoso, inchaço que aumenta após a sessão, ou dor que não alivia nas 24 horas seguintes. Estes sinais devem ser valorizados para que o plano possa ser ajustado. A diferença entre estes dois tipos de desconforto nem sempre é óbvia para quem está a sentir a dor — e é precisamente por isso que ter um fisioterapeuta a acompanhar a resposta ao movimento e a adaptar o programa faz tanta diferença.
O movimento como medicina
Há uma razão pela qual o movimento é a base da fisioterapia, e não o repouso. O exercício está consistentemente entre os tratamentos mais eficazes disponíveis para a dor musculoesquelética crónica, com evidência em várias condições e formatos de intervenção.² A inatividade física, por outro lado, está associada ao agravamento da dor ao longo do tempo.²
O movimento faz várias coisas ao mesmo tempo que a medicação, por si só, não consegue replicar. Fortalece os músculos que dão suporte a uma articulação lesionada, reduzindo a carga que a própria articulação tem de suportar. Promove a circulação nos tecidos que precisam dela para recuperar. Ajuda a dessensibilizar vias do sistema nervoso que se tornaram hipervigilantes, reconstruindo gradualmente a confiança do cérebro de que determinado movimento é seguro. E ativa os mecanismos naturais do corpo para modular a dor, alterando a forma como o sistema nervoso processa os sinais que recebe.
As pessoas que se mantêm ativas durante a recuperação relatam frequentemente uma experiência melhor do que aquelas que repousam — não apenas porque os músculos ficam mais fortes, mas porque o sistema nervoso tende a ficar menos sensível à dor. Movimento e alívio da dor não são opostos. Para a maioria das condições musculoesqueléticas, o movimento faz parte do próprio mecanismo de recuperação.
Porque é que acertar na prescrição importa
Saber que o movimento ajuda é uma coisa. Saber que movimentos fazer, em que sequência, com que intensidade e com que adaptações à sua anatomia e historial é outra completamente diferente. Errar nessa prescrição em qualquer uma das direções — demasiado, cedo demais, ou pouco durante tempo demais — pode agravar a dor ou reforçar ainda mais o padrão de evitamento.
É esta a lacuna que a maioria das pessoas encontra quando tenta gerir dor musculoesquelética por conta própria. Conselhos genéricos como “mantenha-se ativo” ou “faça alguns alongamentos” não têm em conta a origem da dor, a fase de recuperação do tecido, nem o nível de medo e evitamento que se acumulou em torno de determinados movimentos. Sem essa especificidade, um esforço bem-intencionado pode facilmente estagnar ou ter o efeito oposto ao desejado.
A fisioterapia estruturada foi criada precisamente para preencher essa lacuna. Um fisioterapeuta constrói um plano ajustado ao ponto em que se encontra agora, monitoriza a sua resposta e adapta o programa à medida que progride. Também aborda a dimensão psicológica da recuperação — o medo, as crenças pouco úteis sobre o que a dor significa, a catastrofização — porque estes fatores têm efeitos mensuráveis nos resultados e não desaparecem simplesmente com exercício.³
Em resumo
Evitar o movimento quando sente dor parece a coisa certa a fazer. Em lesões agudas e de curta duração, por vezes é. Mas, na maioria das dores musculoesqueléticas, quanto mais tempo o evitamento se prolonga, mais difícil se torna a recuperação. O mesmo sistema nervoso que aprendeu a proteger uma articulação dolorosa pode aprender que o movimento voltou a ser seguro — e a fisioterapia foi desenhada para orientar esse processo.
Compreender o que a dor está realmente a comunicar — e aprender a distinguir o desconforto que faz parte da recuperação de um sinal para parar — não é algo que a maioria das pessoas consiga calibrar com fiabilidade sozinha. Essa clareza vem de ter um fisioterapeuta a avaliar a verdadeira origem da dor, a explicar o mecanismo e a construir um plano suficientemente específico para eliminar a tentativa e erro. Educação e movimento, em conjunto, são uma das vias mais eficazes para superar a dor musculoesquelética crónica.²
O caminho para a recuperação não passa por se esforçar mais nem por descansar mais. Passa por se mover com a informação certa, na sequência certa, com alguém a ajustar o plano à medida que o corpo responde. É assim que a recuperação acontece quando funciona.
Referências
- 1
Vlaeyen JWS, Linton SJ. Fear-avoidance and its consequences in chronic musculoskeletal pain: a state of the art. Pain. 2000;85(3):317–332. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10781906/
- 2
Sánchez-Sabater A, et al. O papel do exercício físico na dor musculoesquelética crónica: o melhor medicamento — uma revisão narrativa. Healthcare. 2024;12(2):242. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10815384/
- 3
Booth J, et al. Eficácia de programas de intervenção física e cognitivo-comportamental para a dor musculoesquelética crónica em adultos: uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios controlados aleatorizados. PLOS One. 2017. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6786598/
- 4
Gibbs MT, et al. Eficácia do exercício doloroso versus não doloroso na intensidade da dor, incapacidade e outros resultados reportados pelos doentes em adultos com dor musculoesquelética crónica: uma revisão sistemática atualizada com meta-análise. Journal of Orthopaedic and Sports Physical Therapy. 2025. https://www.jospt.org/doi/10.2519/jospt.2025.13253

